segunda-feira, 30 de janeiro de 2017





















peixes invertidos
vagabundeiam paradeiros,
rotinas
fabricam preces,
eu 
encruzilho casas.
de manhã
um café na porta dos umbrais
e algum choro massageia o rosto quente.
aliás, todo choro massageia o rosto quente.
água-viva 
queima,
lágrima-viva
queima mais. 





Maíra, janeiro de 2017
Fotografia de Flor Garduño

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

[dezembro]




dezembro magma da encruzilhada.
que caminho o olho viu de ouvir a pele? 
retrospecto para abrir-se 
coração
prepare um sonho!
o céu está em flecha. 






imagem - http://zodiacsignsz.info/



domingo, 13 de novembro de 2016

[diário de uma agitadora]




persigo a rapsódia enxuta
iluminuras de Brecht

di-a-le-ti-ca-men-te    ver 
de    ouvir    o     verso.





(Maíra, novembro de 2016. Na foto, Bertold Brecht.) 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

[da série: quase-contos] sobre amor

Foi do nada. O Amor saiu correndo, derrubando  os mundos, estraçalhando nuvens de amor guardado e corações de amor preenchidos. Tudo ficou morno, sem beijos ou abraços imensos. Tudo insosso. A saudade foi uma das que mais sofreu... ganhou peso e jeito de abismo.

Ele correu sem parar por dias... ninguém entendia o que acontecia, não falava com ninguém, só corria.  Mais de uma semana em fuga não se sabe do que. Até que sentiu sede e parou na beira de um rio resmungando cansaço. Do Orum o avistaram e pediram pra Oxum interceder.

Enquanto Amor matava a sede, a voz de abraço das águas disse:
- Amor... o que está acontecendo? Por que não para de correr? Pra onde você quer ir? 
Foi ouvir a voz de Oxum, ele desabou a chorar. Chorou, chorou, chorou até quase virar nascente. 
A doce Orixá, sensível que é, falou:  - Ôô Amor meu, deite aqui e descanse...
Oxum o colocou no colo, cantou e cantou até adormecer. Quando ela já sonhava, ele encheu seus potes d'água e seguiu em disparada. 



Embrenhado na mata se transformou em som. Misturado as folhas começou a se espalhar chorando devagar. Oxóssi, esperto e de tiro certo, percebeu movimento novo e num rompante segurou o som do Amor pelos cabelos com uma só flecha.  Esse, gritava: - Não me mate, não me mate! Sou eu, Amor! Me deixe seguir viagem grande Rei de Aruanda, só me deixe seguir viagem.
Desconfiado, Oxóssi pediu que ele esperasse. Fechou os olhos e procurou por dentro o dia que amou. Sentiu a força que ali estava e  fez reverência:
- Em que posso ajudá-lo? O senhor está fazendo falta no Aiê. As pessoas estão cinzas e pouco corajosas, isso me incomoda. O que busca? Quer ajuda? Sou exímio caçador. 
- Senhor Oxóssi, com quem tanto aprendo, um dia quero nunca errar como o Sr. Seria uma honra tê-lo ao meu lado, mas preciso seguir só. 
Agradeceu e se largou por baixo da terra.

Correu por dias sem ver o sol, até que se bateu numa pedreira que cortava mundo abaixo. Tonto e machucado avistou Xangô, posicionado a sua espera, dizendo:
 - Pensei que chegaria antes! Disseram que você tem parte com o vento, que corria que era uma beleza!
- Kaô Kabecilê meu senhor Xangô. Pode me deixar passar?
- Nem bem chegou e já quer ir embora? Todo o Aiê está atrás de você, se eu te deixar ir vão me culpar. Infelizmente terei que te prender. Foi o acordo feito entre os reis e rainhas. Não serei eu a descumprir.
Amor se desesperou: - Tenha misericóridia e não me prenda. Por todo e tanto amor que já recebeu Senhor das Pedreiras, me deixe ir.  
Xangô se mostrava irredutível: 
- Não posso. Você não pode mais fugir.
- Senhor Xangô, muito admiro tua coragem, mas parece que preciso lembrar que foi o Amor de Iansã que te trouxe de volta da morte. Me deve também tua vida. Mostre respeito e me deixe passar. 
Nessa hora tudo estremeceu. Xangô achou um absurdo! Quanta petulância! Quem ele pensava que era? Cheio de si e tratando dessa forma um momento tão sério da vida de um Orixá? Xangô estava enfurecido e já ordenava a prisão  quando Iansã chegou tempestuosa:
- Que confusão é essa? Quem é esse senhor? Porque está tão maltratado? O que você fez Xangô?! 
- Eu? Nada! Ele que está fugindo. Só estou garantido que pare de fugir, como o acordado. 
- E do que ele foge? Algum mal te persegue? Quem é você? 

Mesmo sujo e fraco, Amor ficou luminoso com a presença de Iansã.  A beleza tomou conta do lugar. Tudo ficou viçoso e com algum ardor. Ele respirou fundo e disse: 
- É incrível quanto de mim há dentro da Senhora! Eu vim buscar-me em você bela Oyá. Estou morrendo e ninguém percebe. Se afogueiam em paixões, brincam de encantamento, se misturam de mágoa e rancor e acham ser isso Amor. Estou doente e precisava encontrar alguém que já amou tanto, que o amor entrou na carne além do peito. Vim correndo de longe porque ouvi dizer que o amor de Oyá é o maior do mundo.

A Orixá ouviu atentamente e pediu que todos saíssem. Chamou mãe Nanã e Omolu pra cuidar das feridas de Amor.  Pediu com carinho a Ogum que fizesse a arma mais bonita do mundo. Costurou com faíscas e raios uma roupa vermelha e dourada, e pediu a Iemanjá que o deixasse morar por uns dias dentro de sua poesia salgada. Melhor lugar pra recompor energia. Antes de partir, foram os dois pra montanha mais alta falar em segredo. Conversaram por 27 horas e até hoje não se sabe o que foi dito. Ela entregou a ele um potinho com fogo e mel pra guardar junto ao peito. Ele entregou a ela olhos de ver dentro do amor das pessoas. Se abraçaram por longos minutos e por baixo deles se fez panapanã, centenas de borboletas dançando no vento fazendo Tempo girar. Quando desceram, Exu estava a postos para seguir com ele a estrada de fogueira e encruzilhada. 















(Maíra Guedes, Salvador-Ba,
22 de setembro de 2016)


Imagens:
1. Oxum de Anne Gonzaga
2. Oxóssi de André Hora
3. Xangô de André Hora
4. Iansã de Carybé
5. Exu, autoria desconhecida

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

[corpo-bahia]


Meu baiano 
Corpo imenso
Estrondo e curva 
Pelourinho
Flameja bandeiras
Furando a têmpora
Avessa ao vôo.


(Maíra, setembro de 2016, imagem: Carybé) 




quarta-feira, 21 de setembro de 2016

primavera



desperta em chamas o anoitecer.

encantar-se é longo.

búfalo em fúria a correr.

arrebenta!

meu corpo é Oyá no Aiê.


(Maíra, 21.09.2016)

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

cápsulas

por favor
todo dia
grandes doses
de poesia
antes
dos editoriais
e astrologia.