quinta-feira, 4 de abril de 2019



sempre me vi grande
mesmo criança
eu era grande
não tenho memória de me achar pequena.
na 4a série, com 9 anos, a professora reclamava porque eu perguntava demais. dava opinião demais
os homens começaram a me fazer pequena
das suas ações, conheci o medo
coisa completamente oposta ao meu jeito expansivo de viver desde que berrei no Manoel Novaes em Itabuna - Ba, às 11:25 da manhã num dia de dezembro, em 1986.
a violência de vocês me diminuiu por anos
e ainda tenta me deixar pequena
mas sou imensa
vim pro mundo parida pelo vento
do ventre
de uma filha do ar
feita de dor e raio
tempestade e movimento
"medo não me alcança"
não venha querer cravar em minha pele o que não é meu
vivo num corpo-memória que se permitiu adormecer e nascer
vá pra longe com sua palavra mal.dita
com seus golpes de faca, pau, ácido, revólver, murros e tesouras
com seu olhos nojentos me vendo coisa pornográfica, propriedade do seu desejo

sempre me vi grande
mesmo criança eu era grande
não tenho memória de me achar pequena.





texto: Maíra Guedes, 04 de abril de 2019
fotografia e edição: Júlia Guedes

abril vermelho
prepara tempo
pra nascer vento
dentro de maio

domingo, 31 de março de 2019


Quanta gente língua
excitante da palavra
lambe a fronteira
pelepágina?

domingo, 24 de março de 2019

o caminho é sempre
olhar pra lá
começo de calor
combustão sensorial
calafrio nas sombras
susto. sopro na
ausência.




(do diário de bordas, 2017)

sábado, 23 de março de 2019

dicionário 3

término

dever
devir.
entendi despir.
ela: despedir.


...

negação

memória não é carcaça
mergulho não é naufrágio
destruir amor
não é arte de poeta


...

desejo

pólvora molhada
secando ao sol
mas é nublado
o dia

segunda-feira, 4 de março de 2019

sábado de carnaval

meu corpo 
sua avenida
curto
circuito doce
sem corda
meu gozo 
vulcão sem parede
e o seu
fluição de tempo

esù perto 
carne dentro
em-ba-ra-lha-men-to 
na boca da montanha

meu olho
nu
olho de rio do homem terra. 


(Maíra, carnaval de 2019)






beija-me, 
lava a cor escárnio,
me faz dádiva
de deus
o que quero dizer
palavra
entidade gráfica
entidade língua 
dos meus olhos surdos
capaz de sussurros,
cantigas inúteis 
de dor.